- Embófia – saiu ele gritando da sala do diretor. – Embófia – ele repetiu.
Não esperava nada disso hoje para o meu dia. Havia planejado para ser perfeito. Serenidade, paz, metas consumidas. Pedaço de muffin com café aromatizado de baunilha com nozes ao final da tarde. Mas ele saiu gritando essa tal de embófia com tamanha gravidade que contagiou em sua surpresa. O diretor me chama ao telefone. Essa, reação lógica. Solicita que eu peça com urgência em sua sala seu sócio-diretor. Alguns toques, chamadas e feito. O sócio-diretor chega agitado e entra imediatamente sem anunciação. Ok, eles se entendem. Vamos lá, fazer alguma coisa – penso para dispersar. Retomo ao tempo corrente envolta em mim mesma. Assim quero para esse dia e conecto-me. Escondido, ligo o Mp4 dentro da gaveta. Está o suficiente apenas para a minha audição. Muitas páginas digitadas, emails lidos, respondidos, urgências revistas, concluídas; muitas ligações realizadas, outras transferidas. Eu ajeito aos cabelos por vezes, assim como, refaço o batom nos lábios. É importante o asseio e a aparência no escritório. Por fim, o equilíbrio senti. Meu pensamento vai longe para onde não sei por que exatamente vejo nada. É somente a sensação do querer sentir prazer ainda que no vazio. De verdade mesmo, vou dizer, por vezes tenho assim essa alegria de se estar viva e segura esteja onde estiver. E pode ser aqui, dentro deste escritório. É invariável e simplesmente pelo motivo de ter água potável e fresca para beber, o chão que não vai tremer nem bombas ou aviões que cairão por aqui. Opa, pintou a vontade de escrever na rede social... Ele voltou, Sr. Embófia. De fronte minha mesa, me olhou profundamente e pediu ser anunciado. Veio decidido e deu ponto final nessa minha tal proposta de auto-relação harmônica e tornou-se decisivo para mim: Bonito, adorável, abençoado. Puxa! Nunca antes tinha reparado nele assim, mas dessa vez me fitou tão diretamente que se tornou impossível. A beleza da inconseqüência foi o que me provocou este instante. É importante praticar por vezes senão é tudo sem graça demais se resumindo aos suspiros de vida como ora descrevi. Ficamos apenas a apresentar respostas por obrigação de ser assim. – Desculpe, - corri antes de ele entrar no elevador - poderia me responder se está tudo bem? Digo, lá dentro, é preciso alguma providência? O senhor necessita de alguma providência? – perguntei estando ao seu lado e me esquecendo do telefone tocando de minha mesa. – Não, senhorita. Não há mais providências a tomar. Boa tarde. – E sumiu por detrás da porta do elevador. Oh, mediocridade. Estou aqui, tomando meu café aromatizado, porém hoje não será a costumeira baunilha com nozes, mas chocolate trufado. Doce inconseqüência, queria praticá-la em mais porções muito embora nem sempre o dia termine perfeito e o nirvana exploda! Vou por enquanto, exercitando a ousadia nos aromas do café.


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